Mostra Competitiva Oficial - Programa A imagem e seus procedimentos
O principal intuito desse programa é revelar obras que ao mesmo tempo que recusam uma simples classificação – o meramente “experimental” aqui já não é suficiente e mesmo limitador – trabalham de forma quase artesanal com a essência primordial do cinema. A imagem: plástica, reveladora, vigilante. O som: ressignificado, equilibrado a um patamar tão (ou as vezes até mais) importante que o da imagem. E o ritmo: subversivo, sensorial, sugestivo. Filmes que se utilizam desses atributos para moldar obras que anunciam uma outra política do olhar, instigante, contemporânea e cheia de possibilidades. Seja o documentário, seja a ficção, seja o inclassificável, o ato de olhar aqui é também um ato de compartilhar, de etapas e fases, de progressões e ritmos. Gêneros que se misturam e se confundem em uma saudável experiência de sensações e questionamentos.
Uma característica singular que percebemos em vários dos filmes que chegaram é um curioso trabalho de resignificação sonora, deslocamentos entre imagem e som que sugerem uma terceira experiência. Seja a conversa despojada que encontra o olhar vigilante de Fantasmas, proclamando uma nova política contemplativa. A plasticidade sugestiva e a faixa sonora calorosa de Elegia. A digressão luminosa de Pela Janela, potencializada por memórias e confissões de experiências que apenas ouvimos mas, ainda assim, assistimos a todas elas intuitivamente. As possíveis leituras e releituras, dando significado e complexidade a uma foto em Memória a Dois. Ou ainda a contradição audiovisual, sensorialmente poderosa e de saudável pretensão em Deus. Esses trabalhos ganham força através de uma reconfiguração muito particular entre o que se vê e o que se escuta, uma manipulação por vezes sutil, por vezes mais extrema, a certeza que temos é que são obras que insinuam a desconstrução como possibilidade de descoberta, ao revelar seus procedimentos de forma discreta e poderosa.
Narrativamente falando, identificamos essa mesma ideia do procedimento, da desconstrução como propriedade explícita da obra. Seja de forma crua e palpável, como as etapas de uma descoberta técnica-afetiva em Situação Real. Ou frágil e tensa, como o registro espontâneo de uma criança que invoca memórias históricas em Avós. Registro esse que nos leva a outra modalidade importante desse programa, o olhar subjetivo enquanto possibilidade de um registro propagador de intimidades. Como em Visita, em que a câmera (e aquele que está atrás dela) mantém um olhar pessoal ativo e participativo em uma situação familiar reveladora. Ou O Golpe do Espelho, quando um plano sequência explicitamente amador trabalha em prol da evolução da tensão narrativa enquanto registro clandestino. Em um campo mais sentimental, A saudade é um filme sem fim tem em seu minimalismo de arquivo super-8 uma nostalgia de registro misterioso. O procedimento, o registro, a espontaneidade como etapa para o descobrimento. A força de uma imagem, sua materialidade e maleabilidade trazem a tona outra vez o operacional, não no seu sentido metalinguístico mas sim em seu caráter investigativo de sensibilidade cinematográfica e reorientação do olhar. O impulso aqui não é tanto o de contar, mas o ato instintivo de se observar e, consequentemente, partilhar.
O que nos interessa em todos esses filmes, acima de tudo, são os riscos que esses trabalhos escolheram correr. Usando da linguagem audiovisual para insinuar um vigor saudável e necessário através do olhar ainda em formação (mas já cheio de particularidades) desses jovens realizadores. Tudo isso de alguma forma prova uma certa urgência na utilização de dispositivos não-convencionais para se narrar ou, especialmente no caso da maioria desses filmes, intuir uma obra. Em um panorama nacional de curtas-metragens tão convencional e regular como o nosso, a busca por novos paradigmas que coloquem em cheque o próprio cinema enquanto disciplina artística deve ser sempre valorizada e, além de tudo, celebrada.
Arthur Tuoto
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